23.12.15

A fadinha que voou pra longe

A sociedade sempre pareceu hostil aos meus olhos. Cheia de ódio, competição, soco na cara. De tanto levar porrada, passei a me isolar. Sentava sobre as pedras na costa do mar e observava a vida que passava lá dentro, o rosto coberto de cicatrizes e lágrimas. Via de forma distorcida esponjas, sereias e tubarões. De tanto ficar ali, sedimentei meu coração até virar pedra. À medida que crescia, criava uma armadura em volta do peito, uma espécie de exoesqueleto imaginário que passou a me proteger das ilusões sociais. Fiquei casca grossa. Treinei minha espada exaustivamente e aprendi a usá-la com maestria. Tornei-me uma espécie de guerreiro zen na batalha do cotidiano. De dia, um surfista medieval. À noite, um trovador solitário. Em público, um palhaço meio sombrio. Os amores sempre foram bissextos.

Ainda assim, a mágica me rodeia e me faz sentir herói, embora meio desequilibrado. Vejo sonhos repetirem-se milhares de vezes no cinema da minha mente antes de se concretizarem, como peças de quebra-cabeça sendo encaixadas pelas mãos invisíveis de Deus. É que de vez em quando, as ondas batem e mudam a disposição das coisas. Mergulho pro fundo e consigo sentir com plenitude toda a beleza que existe ao meu redor. Então me sinto vivo, conectado com a ordem do universo. E magicamente, a armadura ao redor do meu peito deixa de existir, o coração volta a bater. Esses mergulhos tem sido cada vez mais constantes. As ondas aumentam à medida que diminuo as drogas. A busca pelo equilíbrio me faz enxergar mais as cores. E tudo isso atraiu a fadinha pra perto de mim.

Ela é fosforescente, essa pequena fada. Pinta em preto e branco, mas o vermelho é sua cor favorita. Tem uma leveza que eu nunca vi igual. Sangue e tinta. Com sua varinha magica, a fadinha pinta corpos, colore almas. Olha nos meus olhos e interpreta meu estado de espirito pela cor que emana deles. Estar com ela foi como botar um óculos com lentes vermelhas por três noites seguidas. Na primeira, senti por vários instantes um arrepio no peito. Como se eu tivesse me despido de vez da armadura que há muito carrego e que já faz parte de mim. Uma espécie de fragilidade, como se a inércia e a apatia tivessem abandonado meu corpo por completo. Tornei-me um ser vulnerável, como o resto das pessoas.

O dia seguinte seguiu como se aquela sensação já fosse algo normal, com ela se encaixando perfeitamente na curvatura do meu tórax. Yoga, massagem, libido a flor da pele. A noite chegou pesada, a fadinha estava exausta de tanto pintar. E dormimos como se já fizéssemos parte da vida um do outro. Quando a terceira noite chegou, ela finalmente me levou pra conhecer a sua caverna. Logo na entrada, o anúncio: ela tem o poder, não há escapatória. Sua toca é miudinha e delicada. Aconchegante como um travesseiro de plumas. Como sempre, pequei pelo excesso de força – esse meu lado pedra que ainda não consegui deixar de lado. E sem querer, espatifei o brinquedinho dela. Vacilei. A fadinha ficou bolada, me expulsou da caverna e voou pra longe. E eu voltei a sentar-me nas pedras para observar de fora o que eu acabara de viver. E agora estou aqui, o surfista medieval esperando as ondas voltarem para levar-me de volta ao fundo do mar.

Talvez a fadinha tenha vindo apenas para iluminar o meu final de semana, como um passeio pelo parque de diversões dos sentimentos. Despertar a esperança para seguir em frente na longa estrada, tipo uma caroneira do paraíso que voa por aí espalhando mágica pelo mundo. Ou talvez ela seja mais do que isso. Talvez tenha vindo pra ser minha fada particular, tipo um anjo da guarda em forma de menina. Meio menina, meio entidade, meio mulher. E sua fuga talvez seja um aviso para ir mais leve daqui por diante. Ou talvez eu esteja viajando. Sim, estou viajando, mas essa viagem é real e não ilusória, como várias outras em que já me meti. O palhaço agora foge da sombra. O guerreiro zen avistou a cidade prometida e não quer voltar atrás. O trovador cansou de ser solitário, tudo que precisa agora é de uma nova chance para tocar sua flauta mágica e reencantar a musa. O anti-herói pede à fada que volte com a chave do castelo.