23.12.15

A fadinha que voou pra longe

A sociedade sempre pareceu hostil aos meus olhos. Cheia de ódio, competição, soco na cara. De tanto levar porrada, passei a me isolar. Sentava sobre as pedras na costa do mar e observava a vida que passava lá dentro, o rosto coberto de cicatrizes e lágrimas. Via de forma distorcida esponjas, sereias e tubarões. De tanto ficar ali, sedimentei meu coração até virar pedra. À medida que crescia, criava uma armadura em volta do peito, uma espécie de exoesqueleto imaginário que passou a me proteger das ilusões sociais. Fiquei casca grossa. Treinei minha espada exaustivamente e aprendi a usá-la com maestria. Tornei-me uma espécie de guerreiro zen na batalha do cotidiano. De dia, um surfista medieval. À noite, um trovador solitário. Em público, um palhaço meio sombrio. Os amores sempre foram bissextos.

Ainda assim, a mágica me rodeia e me faz sentir herói, embora meio desequilibrado. Vejo sonhos repetirem-se milhares de vezes no cinema da minha mente antes de se concretizarem, como peças de quebra-cabeça sendo encaixadas pelas mãos invisíveis de Deus. É que de vez em quando, as ondas batem e mudam a disposição das coisas. Mergulho pro fundo e consigo sentir com plenitude toda a beleza que existe ao meu redor. Então me sinto vivo, conectado com a ordem do universo. E magicamente, a armadura ao redor do meu peito deixa de existir, o coração volta a bater. Esses mergulhos tem sido cada vez mais constantes. As ondas aumentam à medida que diminuo as drogas. A busca pelo equilíbrio me faz enxergar mais as cores. E tudo isso atraiu a fadinha pra perto de mim.

Ela é fosforescente, essa pequena fada. Pinta em preto e branco, mas o vermelho é sua cor favorita. Tem uma leveza que eu nunca vi igual. Sangue e tinta. Com sua varinha magica, a fadinha pinta corpos, colore almas. Olha nos meus olhos e interpreta meu estado de espirito pela cor que emana deles. Estar com ela foi como botar um óculos com lentes vermelhas por três noites seguidas. Na primeira, senti por vários instantes um arrepio no peito. Como se eu tivesse me despido de vez da armadura que há muito carrego e que já faz parte de mim. Uma espécie de fragilidade, como se a inércia e a apatia tivessem abandonado meu corpo por completo. Tornei-me um ser vulnerável, como o resto das pessoas.

O dia seguinte seguiu como se aquela sensação já fosse algo normal, com ela se encaixando perfeitamente na curvatura do meu tórax. Yoga, massagem, libido a flor da pele. A noite chegou pesada, a fadinha estava exausta de tanto pintar. E dormimos como se já fizéssemos parte da vida um do outro. Quando a terceira noite chegou, ela finalmente me levou pra conhecer a sua caverna. Logo na entrada, o anúncio: ela tem o poder, não há escapatória. Sua toca é miudinha e delicada. Aconchegante como um travesseiro de plumas. Como sempre, pequei pelo excesso de força – esse meu lado pedra que ainda não consegui deixar de lado. E sem querer, espatifei o brinquedinho dela. Vacilei. A fadinha ficou bolada, me expulsou da caverna e voou pra longe. E eu voltei a sentar-me nas pedras para observar de fora o que eu acabara de viver. E agora estou aqui, o surfista medieval esperando as ondas voltarem para levar-me de volta ao fundo do mar.

Talvez a fadinha tenha vindo apenas para iluminar o meu final de semana, como um passeio pelo parque de diversões dos sentimentos. Despertar a esperança para seguir em frente na longa estrada, tipo uma caroneira do paraíso que voa por aí espalhando mágica pelo mundo. Ou talvez ela seja mais do que isso. Talvez tenha vindo pra ser minha fada particular, tipo um anjo da guarda em forma de menina. Meio menina, meio entidade, meio mulher. E sua fuga talvez seja um aviso para ir mais leve daqui por diante. Ou talvez eu esteja viajando. Sim, estou viajando, mas essa viagem é real e não ilusória, como várias outras em que já me meti. O palhaço agora foge da sombra. O guerreiro zen avistou a cidade prometida e não quer voltar atrás. O trovador cansou de ser solitário, tudo que precisa agora é de uma nova chance para tocar sua flauta mágica e reencantar a musa. O anti-herói pede à fada que volte com a chave do castelo.

27.2.14

Insanidade Virtual


Bom, eu agora me rendi a essa coisa de insta-grão. Parece que é uma necessidade virtual dos dias de hoje, principalmente para artistas e/ou celebridades como supostamente eu deveria ser. Mas acho que não sou nem muito um nem muito o outro. Ou talvez eu seja um pouco dos dois e muito de outras coisas. Não é que eu não saiba exatamente quem eu sou, na verdade eu tenho muitas pistas. Mas é que não consigo me encaixar dentro dos rótulos que foram criados por aí. Talvez eu precise criar um rótulo tipicamente meu, só meu. Sei lá. Isso aqui é pura viagem, só pra você saber.

Talvez o insta-grão e o feicebuque nada mais sejam do que inúmeros mini-rótulos - semanais, diários ou simplesmente consecutivos - que nós fazemos de nós mesmos para tentar nos vender arbitrariamente. Pensa só: você retrata uma imagem sua com alguém que lhe agregue valor - ou alguma coisa, e/ou em algum lugar -, adiciona um slogan cool do momento e pá! Você posta! E fica embasbacado com o número de gente que você nem conhece que está olhando para um telefone naquele exato momento e curtindo o que você acabou de postar. Parece que você cresce um pouco a cada curtida, a cada comentário. Seus seguidores se multiplicam feito Gremlins... Sem dúvida, uma bela armadilha para os nossos egos já machucados, que precisam de um carinho especial.

Até que você percebe que é mais um Gremlin desperdiçando o próprio tempo com uma porra de um Iphone. Sua vida é uma montanha de areia que escorre pelo buraco feito uma cachoeira, numa espécie de ampulheta surreal. Sua beleza está se esvaindo gradativamente. Você precisa aproveitar o momento, mas tem uma certa preguiça das pessoas. É que é muita gente, né gente?

Hoje em dia tá cada vez mais difícil fugir para o campo ou para uma praia deserta – a vida é muito corrida -, então em vez da natureza, a gente se conecta com o virtual mesmo. Com algo simbólico e distante, que aparente ser interessante o suficiente e que te dê margem para inventar o que você quiser. Inclusive você mesmo. Você escolhe o que quer mostrar para as pessoas e cria um perfil repleto de imagens que refletem a forma como você gostaria de ser. E o mais louco de tudo isso é que ainda tem umas pessoas que criam fakes a partir das imagens de outras pessoas. De pessoas famosas. Pessoas grandes.

Se Jesus Cristo tivesse Insta-grão estimo que ele teria aproximadamente 2 bilhões de seguidores ou mais. Gente para caralho. O que ia ser de proposta de fazer merchandising... Ia ser sinistro negar a porra toda. Ia dar merda. Ia ter mais mulher querendo dar pra ele do que pro Caio Castro e pro Brad Pitt juntas. Ia ser sinistro negar a porra toda. Ia dar merda. Eu sei que eu já disse isso, mas pensa só. Ia ser sinistro.

Para finalizar, Jamiroquai pra vocês:

Futuros feitos de insanidade virtual,
Agora e sempre parecem ser governados por este amor inútil que nós temos
Que não serve pra nada, chacoalhando na nova tecnologia.
Oh, não há som para quem vive underground!

Agora essa vida que nós vivemos
É tão errada!
Grite para fora da janela.
Você sabe que não há nada pior do que um homem que se fez homem?
Ainda não há nada pior do que um homem insensato.

Ei.
Insanidade virtual é essa que estamos vivendo.

6.2.14

No meio do poste, tinha um moleque... Tinha um moleque no meio do poste.

Isso pra mim é poesia. Talvez seja uma poesia sórdida, macabra, sarcástica... Mas eu gosto desse tipo de poesia, seja nos livros do Bukowski, seja nos filmes do Tarantino, seja na merda do facebook. É a poesia crua do cotidiano, que nos pega de surpresa e nos toca o coração, e que nos faz pensar um pouco enquanto a enxurrada de baboseiras continua passando na frente aos nossos olhos. Ok, talvez eu seja um doente. Ou talvez estejamos vivendo numa sociedade doentia, onde alguns – que ainda se julgam sãos, superiores, evoluídos – se sentem capazes de fazer julgamentos. Sinceramente: a imagem do moleque preso no poste não me causou indignação ou revolta. Tampouco me senti representado pelos malucos que o botaram ali.

Num primeiro momento, confesso que achei engraçado. A atitude de colocar um cara, que até onde se sabe rouba bicicletas e roupas, pelado e preso com uma tranca num poste é no mínimo irônica. Você pode concordar ou discordar – eu não faço nem um nem outro –, mas foi uma sacada peculiar. Tanto é que deu no que deu. De um lado, a burguesia que vive no conforto e na segurança se revoltou. Acharam tortura, fascismo, racismo. Como se isso tivesse alguma coisa a ver com posição política ou discriminação racial. Do outro lado, a classe média inconformada vibrava; era a sociedade civil fazendo justiça com as próprias mãos. E os direitos humanos? Acordem, direitos humanos é um bando de palavra bonita escrita num pedaço de papel. Aqui nunca teve nada disso, e se você acha que teve, é porque é filho de alguém com grana. Quem é fudido sabe que viver por aqui é uma questão de deveres, não de direitos.

Já vi acontecer coisa muito pior por muito menos. E todos nós vemos isso, todos os dias. Mas uma coisa é passar no cinema, na televisão, algo que acontece em algum país distante, ou na favela depois do túnel. Outra coisa é ser do lado da sua casa.

Deixa eu te perguntar uma coisa: você viu Bastardos Inglórios e torceu pra que os Judeus ganhassem no final? Você viu Jango e achou do caralho quando o negão matou a galera da Ku Klux Klan? É, talvez você seja tão doente como eu. Mas aquilo é só um filme, não é verdade? Na vida real é diferente. Bom, ambos os filmes mostram pessoas socialmente oprimidas fazendo justiça com as próprias mãos; isto é, escurraçando seus opressores. Quando um moleque fudido sai da favela revoltado, deixando a mãe - que é empregada doméstica – com lágrimas nos olhos e vai em busca de uma vida melhor através do crime, ele representa um desses vingadores tão glamourizados pelo cinema e pela literatura. Quando um rapaz de classe média, que viu sua mãe chegar em casa apavorada - depois de ter sido sequestrada, roubada e quem sabe torturada -, apreende o bandido que a acuou, ele faz o mesmo. Eu particularmente não faço ideia de quem seja o moleque preso no poste e nem o que ele tenha feito. Também não sei dizer quem são os tais “justiceiros” e o que exatamente eles fizeram com o moleque. Só sei que somos um bando de espectadores vivendo mais um capítulo da saga "Civilização Vs Barbárie" ou vice-versa, e que qualquer lado que você escolher nesta batalha será preconceituoso, simplista e idiota. Afinal de contas, ninguém sabe realmente o que aconteceu. Todo mundo está tirando conclusões precipitadas em cima de uma simples imagem e das informações truncadas que chegaram até nós.

É muito estranho ver no Jornal Nacional a notícia de que 15 pessoas espancaram, esfaquearam e prenderam o moleque no poste, mas que não exista nenhum vídeo do acontecimento. Justo no aterro, onde há câmeras por todos os lados. Também é muito estranho que estes 15 justiceiros tenham sido presos, mas liberados por fiança sem que haja uma foto ou informação de quem sejam eles. Parece que ninguém se dá conta de que somos um bando de marionetes assistindo a um filme de ficção, direcionados a tomarem nossas posição em relação a estes personagens. Só que esses personagens são pessoas reais, e – repito - nós não fazemos a menor ideia de quem eles sejam e do que eles fizeram.

Qual a conclusão que se tira de tudo isso? Nenhuma. Por isso que eu acho tão engraçado. Quando eu vejo a galera se revoltando contra o acontecido, acho ridículo. O argumento é de que não é papel da população fazer o que bem entende contra os meliantes, a polícia e o estado é que devem cuidar disso. Mas o que vocês acham que os PMs fazem com ladrões de bicicletas? Servem café enquanto preenchem o boletim de ocorrência? Eles tem sorte de tomar uma coça, pois uma parte grande acaba na vala. E os sortudos enfrentam cadeia ou Febem, o que por muitos é considerado ainda pior do que a morte. Aposto que o moleque preso ao poste estava menos desconfortável pela situação que estava passando do que pela apreensão do que estava por vir. Daí dois dias depois de ter fugido do hospital, ele aparece na delegacia para prestar queixa. Nunca vi ladrão fazer isso. Com certeza tem alguém por trás. Mas vai saber...

Enfim, aconteça o que acontecer com o moleque e com os justiceiros, o processo continuará o mesmo. O governo, a polícia e os próprios justiceiros – seja lá quem eles forem – continuarão com a tentativa fracassada de limpar a cidade. E a malandragem continuará por aí, morando cada vez mais longe, mas nos visitando sempre que possível. O máximo que você pode fazer é postar um texto e escolher aleatoriamente em quem vai votar nas próximas eleições.

Como se fizesse muita diferença.

Pronto, agora que eu discordei de todo mundo, vocês podem me apedrejar.

7.12.13

Tornar a Entornar

--> Meu coração é feito de cinzas e enxaquecas
Mas não tenho queixas
Pois trago sempre uma garrafa d’água debaixo do braço
E lavo minha alma afundando no mar

Pra no cair da noite
Tornar a entornar
O éter do ócio
E me ver rabiscando
Palavras de ódio
E me apossar do sossego
Através do torpor.

E enquanto durar
A brasa na guimba
Estará esquecido
Tudo aquilo que é dor.

Ócio para quem precisa


Ele acordou às 14:22, levantou-se ainda tonto da bebedeira da noite anterior e desceu as escadas apoiando-se na parede. Bateu com a testa no vão do teto e resmungou o “ai, caralho” de sempre. Ouviu um forte respirar de porco do mato - o cara que morava na mesma casa que ele. O porco do mato corria todo suado pelo meio da sala, bufando e salivando feito um porco do mato. Sem dizer uma palavra, Ele cruzou até a cozinha e botou a água pra ferver. Pôs pó de café no filtro. Jogou uma fatia de queijo minas e umas raspas de banana no meio de duas fatias de pão integral e botou toda a gororoba na sanduicheira. Tudo parecia absolutamente normal.

O porco do mato fazia agachamentos, depois ia para um lado, fazia barras, depois andava para o outro, fazia flexões, depois se deitava e fazia abdominais. Parecia apressado, mas não era pressa. Era um “treinamento de sobrevivência”, assim o porco do mato chamava seus exercícios. Ele esperava, ao mesmo tempo em que observava tudo através da fumaça. De repente, a luz vermelha da sanduicheira ficou verde e Ele voltou a se concentrar em sua própria sobrevivência. Enquanto o pão com queijo e banana esfriava, desligava o fogo e passava o café. Enquanto o café passava, começava a comer seu pão com queijo e banana. E quando estava finalmente degustando o primeiro gole do seu café, o porco do mato resmungou, ofegante:

- Acordei cedo...
Ele mastigava aquele queijo fervido.
- Estudei...
Ele dava outro gole do café.
- Agora to malhando...
Ele olhava pro porco esperando a pérola.
- E ontem à noite não comi ninguém.

Os dois começaram a rir, cúmplices. Ele também não tinha comido ninguém, mas pelo menos ganhara um boquete excelente de uma linda morena de olhos verdes - e sem precisar acordar cedo, estudar ou malhar pra isso. Por isso, ria. O porco do mato também ria, pois imaginava o que Ele estava pensando.

Ele lembrou daquela velha música do Raul: “A formiga só trabalha porque não sabe cantar”, ligou o som no máximo e pôs-se a cantarolar. Era apenas mais um sábado nublado começando, na cidade do Rio de Janeiro.

Requiem de Exílio

I
De rolé por Viena
Viro a curva num chafariz que muda de cor
E minha alma se eleva.
Aqui, a cidade das trevas
De invernos tão frios,
Igrejas tão lindas,
E homens tão intensos como Mozart, Hitler e Freud.
Em seu infernos tão densos
Que compõem óperas e constroem palácios,
Mas não resolvem suas pequenas misérias.
Haja arte, religião e psicanálise para curar esses pobres seres.
Oh Senhor,
Traga eternidade para tantas vidas desperdiçadas
Que não fazem idéia de porquê que nasceram.
Traga redenção também para mim
Que sigo perdido no cambiar dos vagões.
II
No coro dos mortos,
Eu solo
Na alternância dos pólos,
Socorro
Com a beleza das obras,
Eu choro
E na incerteza de tudo,
Imploro
Que minha vida seja esplendida, Senhor,
Cheia de cor e de penumbra,
Nuances de humor e terror,
Que nunca me falte saúde, fartura,
Fama e sucesso.
Oh senhor, eu peço desesperadamente pelo amor
Que por falta de habilidade sempre deixo escapar
Por materialidade, egoísmo, incapacidade
Simplesmente não consigo amar.
III
Vou perdendo a pureza
Mas nunca a destreza,
Pois a minha natureza é barroca;
Se arrasta do profano ao sagrado.
Tenho a estúpida pretensão de variar entre estes dois pontos,
Embriagado sobre uma corda.
Sigo cavando minha cova
Pois quero viver no limite
Entre a sanidade e a loucura.
Persigo um duende arisco
Me empurro contra um abismo a cada vez que me arrisco
E me chicoteio na manha de domingo
E me vendo ao mercado central como qualquer outro mortal
Com medo de que o império me condene e me execute.
E quem me olha de longe me sente sereno
Pois meu coracao segue disparando flechas a esmo
Persigo o perigo e também o desejo
Pois no fim do dia
A sobrevivência traz satisfaçao por si só
E o gozo absolve o suor.
IV
Um grito ecoa dentro da floresta
Troveja atrás da catedral
A névoa invade a cidade
Sob uma lua cheia que convida
A morte para um piquenique.
No meio do bosque do parque municipal

A batalha começa
Entre o atleta e o bêbado
O vagabundo e o operário
O ator e o criador.
O louco olha para o gênio com desprezo
E o gênio dorme, entorpecido.
O louco se masturba até desmaiar
Enquanto o gênio cogita o suicídio.
Uma cavalaria embestada atropela o soldado
que fumava e freqüentava prostíbulos.
O dia amanhece banhado de sangue
E restos de gente implorando por misericórdia.
Oh Senhor,
Qual a raíz de tanta tormenta?
V
Os cavalos dormem
Os ratos comem
Os pássaros cantam
E o imperador caga em seu penico banhado a ouro
Homens permanecem presos em grades
Enquanto os deuses nao riem nem choram
Ja nao existem outono, inverno, primavera ou verão
Apenas o carrossel desvairado de fantasmas
Que sentem piedade de si mesmos.
Me faça grande, oh senhor!
Me faça gigante
Maior do que o meu próprio sonho.

12.10.13

Especial: Dia das Crianças

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O menino tatuado no meu ombro direito que só eu vejo tem cabelos compridos e está de costas, hipnotizado pelo sol vermelho que ergue-se por trás do horizonte. Um surfista desliza sobre ondas psicodélicas imensas, num transe igualmente profundo. Ele está no auge. As ondas se espalham e desembocam debaixo das silhuetas dos pés do menino, que caminha em meio a cores vivas, claras e escuras, quentes e frias. Elas derretem-se umas nas outras, numa fusão de contrastes. E ele segue no meio delas feliz, contemplativo, confiante. Tem uma longa jornada pela frente e ainda não traz em seu andar nenhum sinal de desgaste.

Lá no fundo, há uma pequena ilha. Como num clichê, um coqueiro o espera, com as folhas ricocheteando ao vento. E num barquinho próximo dali, um velho pesca com a sua vara. Essa tatuagem invisível que eu tenho queima a minha pele e traz calor para dentro do peito. Esse sol de inverno, que desperta a cada verão.

As praias que visito nas férias me visitam a cabeça durante o ano todo, e o que me mata é a sensação do outono chegando, madrugada após madrugada. Eu atravesso as temporadas seguindo na cola deste menino tatuado. Talvez ele tenha quatro anos, talvez tenha nove. Perco-o de vista demasiadas vezes, e chego mesmo a esquecer do seu sorriso – como ele brilha e seduz. E depois eu choro por tê-lo abandonado, e só isso já faz com que eu volte a me sentir vivo. Este choro é também um uivo, um chamado da natureza. Minha alma grita e ao mesmo tempo ouve o próprio grito. Silencia. Fica perdida por mais alguns instantes, até que o tal menino surge novamente pra tomar conta do seu corpo endurecido. 
 
Como um espírito que me incorpora, esse menino nada no mar. Como um espírito de luz, esse menino se apaixona por cada visão, por cada gosto, por cada som, por cada cheiro... Ele tem sede de vida, por isso toca o mundo. Esse menino tatuado no meu ombro direito que só eu vejo é mais importante pra mim agora do que qualquer outra imagem. E é ele quem eu devo continuar seguindo.

3.10.12

Tragédia Fawcettiana


Às vezes eu me sinto estranho, quase como se estivesse enlouquecendo. Fumo um cigarro e me torno introspectivo. Sem saber como lidar com as pessoas - o que falar, como reagir... Porque as ações estão todas condicionadas; nós já sabemos o que o outro vai dizer e apenas aguardamos a resposta para fazermos aquilo que ele espera de nós. Tudo é previsível na mizencéne do cotidiano. Nada é espontâneo, embora deva parecer espontâneo. Interessante. Surpreendente. A cada encontro, uma nova descoberta.

Vivemos o teatro da vida a cada dia, e tudo que eu preciso fazer é escrever qualquer merda de vez em quando para sentir minha cabeça se elevando sobre o rebanho em movimento. Sou gado como todo o resto, mas pelo menos meu chifre imaginário está mais próximo do céu. Ou o que quer que isso queira dizer.

Daí jogo uma frase de efeito e sorrio para a gostosa na canga do lado. O sol faz ferver o verde dos meus olhos que andava opaco – fruto de uma sucessão de noites mal dormidas –, e eu me transformo no herói de um espetáculo que não existe. Ou melhor, de uma tragédia alucinante. Daqui a poucos minutos, vou por meus fones de ouvido e sair por aí trotando feito um espartano, pela ciclovia da orla. Como se eu estivesse a caminho de mais uma batalha contra o império, enquanto na verdade tudo que eu quero é ficar gostosinho pra próxima novela. Eu sei, parece palhaçada, mas o pior é que é verdade. Minha vida virou um besteirol de 5a categoria, e escrever nesse blog (que anda meio abandonado) ainda é o que me faz rir por dentro.

Então quer saber? Que se foda. Já que nessa pecinha patética eu sou coautor, produtor executivo e protagonista, aqui vai um pouco do meu improviso: uma banana para os artistas de plástico que se sentem iluminados só porque fizeram luzes no cabelo; uma banana com aveia para os ex-artistas integrais, que se plastificaram, acomodados com a fama e com o dinheiro; uma banana com rum para Domingos de Oliveira, que - mesmo se arrastando - louvavelmente emenda um projeto no outro (pena que todos eles são um porre). E um caralho cheio de veia para as patricinhas frígidas e marrentas desse Rio de Janeiro cheio de mentiras fantasiosas que pulsa nas frequências televisivas, radiofônicas e cibernéticas do nosso Brasil inocente.

Esse é o meu groove. Um rap meio filosófico, por ora pesado demais, desnecessariamente agressivo e um tanto sensacionalista... Desculpem, mas é meu groove. E se grooveia, é porque sai do coração.

Salve Fausto Fawcett!
 

28.8.12

Desabafo de 5 anos atrás

Minha mãe é surda de um ouvido,
Meu pai está com câncer de próstata,
Minhas avós estão deprimidas vendo a morte se aproximar,
Lendo bulas de remédio como passatempo...

Tenho um primo esquizofrênico por parte de pai,
Tenho uma prima semi-esquizofrênica por parte de mãe,
Tenho uma tia semi-esquizofrência por parte de pai,
Tenho umas tias meio malucas por parte de mãe,

Quase todos os meus amigos se lamentam por alguma coisa que fizeram ou deixaram de fazer,
Quase todas as mulheres que passam por mim se machucam,
E eu já não me lamento,
Já não me machuco.

Mas quando sinto todo o peso do mundo cair sobre as minhas costas,
Vejo que é minha hora de cair na estrada
e sentir a leveza da brisa bater contra o rosto.
É hora de fugir. De esquecer de tudo.



Escrito em 20.04.08 (Domingo)

25.6.12

Diretamente de um passado remoto

Acendo um pra tentar me acalmar, mas a verdade é que eu já nem sei mais porque estou nervoso. Parece que este se tornou meu estado de espírito constante, embora eu passe a maior parte do tempo tentado representar o papel de alguém que está amarradão com a própria vida. Boto um Bob Marley pra ver se ajuda, mas o messias só me alerta para a falta de sentido que há no caminho por onde venho seguindo: a corrida dos ratos loucos. Como se eu estivesse numa gaiola, vivendo a vida de uma outra pessoa. É uma sensação escrota, acredite. Você deve saber do que eu estou falando…


Não há nada de errado em gostar de correr riscos - é saudável, caso você não seja um suicida. O problema é que eu corro os riscos errados. Como agora, por exemplo. Estou escrevendo, fumando e dirigindo - ao mesmo tempo - numa cidade que tem um dos trânsitos mais perigosos do mundo. Enquanto, na verdade, eu não deveria nem estar nessa cidade. E a pergunta que sai da mente é: onde eu deveria estar?


Momento sublime. Fumaça. Clima tropical.


Penso que eu deveria estar em Bali, escrevendo uma de minhas obra-primas imaginárias. Não precisaria de mais do que um kitinete perto do mar e um lap top para ser eu mesmo em minha melhor performance. Ondas, das mais mágicas… Mas não. Cá estou, dentro de um túnel mórbido, tentando ignorar a sinfonia desordenada das buzinas dos motoboys que passam varados pela minha janela. 


Talvez eu seja mesmo amaldiçoado, como reza a lenda dos sanpaku. O papo vem de um japa metido à muita merda; sanpaku é como ele chama as pessoas que tem "três partes brancas do olhos visíveis", seja uma das partes sobre ou sob a íris. Ele fala que o certo é só aparecerem dois brancos, um em cada lateral da íris. E que aqueles em que isso não ocorre - os sanpaku, como é o meu caso -, seriam pessoas amaldiçoadas: "O sanpaku perdeu o contato consigo mesmo, com seu corpo e com as forças naturais do universo. Os sintomas do sanpaku podem ser reconhecidos como fadiga crônica, baixa vitalidade sexual, reflexos ruins, mau humor, incapacidade de dormir bem e falta de precisão nos pensamentos e ações." Palmas pro japa! Tirando a parte da baixa vitalidade sexual e do 'leve' mau humor, ele até que se saiu bem. Talvez eu até tentasse me curar, caso o tratamento recomendado não fosse comida macrobiótica e exercícios diários para os olhos. Foi mal Miagui, nada contra; mas eu me amarro num churras e eu estou meio sem tempo pra fazer caretas em frente ao espelho.


Devido à falta de opções, me resta mesmo é deixar esses garranchos anotados num caderno que provavelmente ninguém nunca lerá. Talvez esse seja o meu destino. Ah, esqueci de mencionar o que o japa diz sobre o destino dos sanpakucostumam morrer ced, pois são incapazes de prever o perigo - eu li em algum lugar que ele chegou a prever as mortes trágicas de Marilyn Monroe, do Michael Jackson, do Keneddy e de sei lá mais quem. Heath Leather e Kurt Cobain também, eu acho. Enfim, espero que esse papo de maldição seja pura groselha. Prefiro acreditar que escrever chapado sobre o volante me mantenha mais vivo do que morto. Pelo menos faz com que eu me sinta mais calmo.

28.1.12

Da série - bilhetes rasgados achados na máquina de lavar...

Minha mente oscila entre o artista castrado que grita dentro de mim e o vazio confortável do cotidiano. Entre sonho e realidade. Entre pornografia cibernética e a bela donzela que passa noites ébrias ao meu lado. Ela é demais... Em todos os sentidos. Sou viciado nela, e - ainda bem - ela também é em mim. Ouço seus pensamentos a léguas de distância, tentando ler os meus. Mas meu crânio é blindado, ou pelo menos eu prefiro acreditar que ele seja. Embora eu saiba que é pura fantasia da minha cabeça. Da minha etérea e fértil cabeça. Será que eu renovo com a Record? Será que eu deixo rolar? Taí uma pergunta pro amanhã responder. Por hoje, a insanidade me dá saúde. A felicidade me basta.

11.1.11

A ARTE DE ESCREVER

Escrever é como estar na cama com a mulher ideal, amando-a sem medo algum das conseqüências que suas palavras possam causar. Não é algo fácil de se conquistar. Primeiro porque a mulher ideal não existe, ou existe em tamanha quantidade que a gente acaba se confundindo. E segundo que se a gente viver sem medo, a gente morre – já dizia nosso querido: “Darwin.... Agora é pra valer! Eu fiz o meu melhor! E o meu destino, eu sei de cor”. Pequena observação: esse Titães parece meio descabido no momento, mas se você deixar sua mente fluir para o abstrato, vai ver que pode ser legal.

Escrever é como pintar os seios da mulher amada com o próprio semêm – acho que essa frase exprime melhor o que eu queria dizer no parágrafo anterior. E ela torna a escrita algo tangível. Afinal, só é preciso saber curtir seus gestos para dominar sua arte. Aliás, experimente esse negócio da pintura nos seios. Ele também pode ser legal, como algumas das músicas do Titães - umas cinco ou seis, na verdade.

Escrever é só ter compromisso com sua própria natureza. E isso, sem dúvida, é muito legal. Porque quando você escreve, você diz: “Com licença mundo, um minuto por favor que agora eu preciso me manifestar.” E aí você bota pra fora um vômito com sabor de tuti-fruti na cara disforme de tudo que te cerca e grita que é uma pessoa livre! Para, minutos depois, pensar: “Ok, de volta à vida real”, e então vociferar uma série de ‘porfavores’, ‘muitobrigados’ e ‘mildesculpas’ pouco sinceras a torto e a direito.

Bukowski escreveu, pouco antes de morrer: “Viver é como engolir baldes de merda”; anos antes, mandou: “Escrever é o grande psiquiatra”; e num de seus poemas antigos: “É fácil ser poeta. Difícil é ser um homem”. Bem, eu estou aqui tentando fazer malabarismos com as palavras só pra não ter que pensar nos problemas fictícios que acabei criando pra me ocupar, logo vou ter que fechar com o Velho Safado mais uma vez. Só pra ele não se sentir esquecido, pois nunca falei dele nesse blog.

Escrever é fazer um intervalo da realidade. Porque o homem, quando escreve, se utiliza apenas de tinta e papel - ou um teclado e uma tela de LCD - para criar toda uma nova dimensão. O escritor é aquele que domina os códigos cifrados da natureza e os decifra a céu aberto, para que todos possam ver as vidas que levam sob um diferente aspecto. De preferência, de um aspecto mágico.

Escrever é buscar dentro da cuca toda a mágica que está ausente fora dela; ou toda a mágica que nós, pobres mortais, temos dificuldade de enxergar.

19.10.10

A ARTE DE SER ARTISTA

A arte nunca nasce da felicidade. É sempre algo que você faz pra fugir do inferno que está vivendo, pois quando você está verdadeiramente feliz, nada precisa ser feito. Ninguém compõe óperas quando está acompanhado de amigos e mulheres lindas numa praia deserta. O máximo que se faz é celebrar o que já está feito e ter algumas idéias pros próximos projetos. E esta, meu queridos, é a melhor etapa de qualquer arte que se faça. Assim sendo, só escrevo nesse blog quando me sinto um inútil, e ainda assim a coisa não melhora, pois ele vive às moscas. E outro dia eu escrevi sobre “A arte de matar mosquitos”... Desse jeito não vão sobrar leitores - o que não é tanto um problema, já que isso aqui é apenas uma punhetinha intelectual... O pequeno prazer do exercício como caminho para um gozo solitário.

Ok, voltando para a viagem inicial. Ser celebridade é algo muito diferente de ser artista, certo? É fingir que não há inferno. É por isso que as pessoas gostam das celebridades, porque elas lhes dão a esperança de que talvez não seja necessário haver inferno. Mas é claro, é tudo caô. Vivemos num inferno - pelo menos todos nós aqui da babilônia. Incluo neste saco as próprias celebridades, e é aí é que está a raiz da hipocrisia dessa porra toda. Desculpem, estou falando feito um adolescente. Voltarei ao meu ‘literalismo’ de merda num instante.

Estamos no inferno, amigos. Não há descrição melhor para o Rio de Janeiro. Calor, caos, dinheiro, beleza, fama, luxúria, vaidade e inveja. É a ‘roliúde’ brasileira, ou algo próximo disso. Lá na ‘roliúde original’, pelo menos o entretenimento é tido como uma ciência industrial. Aqui tudo é feito meio de qualquer jeito. Maquidonalde cultural. Não há escola pra nenhuma arte e os poucos talentos que existem não são lapidados, logo se perdem pela falta de incentivo ou pelos programas de auditório.

Acho que estou falando demais... Cof, cof, cof.

Agora, quem sou eu pra criticar o ‘sistema’? Um merda qualquer que tirava nota boa em redação quando criança, nada além disso. Se eu fosse um artista de verdade, não estaria nesse blog pitoresco, estaria escrevendo uma coluna no “Globo” semanalmente. Tipo, contracapa do Segundo Caderno. Mas lá tem neguinho muito mais foda do que eu, porra. Pra começar, ninguém fala palavrão. Não pega bem. Tem uma mulé que escreve sobre os gatinhos que sobem em árvores e não conseguem descer, da capivara que morreu afogada no arpoador, dos tatuís acasalando durante a primavera... Tem um maluco que sabe de todos os discos de todas as bandas de todas as épocas do mundo todo. Tem um outro que eu nunca consegui passar do segundo parágrafo, mas que deve ser bom. Eu que sou um bosta de não me interessar. Jabor e Joca, vocês não só estão salvos como têm todas as minhas honras, de verdade. Mas se eu fosse um de vocês e tivesse que escrever um artigo pra amanhã falando sobre o meu dia de hoje, seria mais ou menos assim:

TRAGÉDIA DA VIDA PÚBLICA

Quarta feira, 7 horas da noite. Clube Federal, Alto Leblon. Pelada dos Artistas. Supostamente, um treino para ‘famosos’ que jogam jogos de futebol beneficentes – quanta arte e solidariedade juntas! Nada mais adequado pra uma cidade que tem o Baixo Gávea como pólo cultural. Dentre os jogares que aqui estão, aqueles que participam da maior quantidade de festas de 15 anos são escalados pra ‘Copa do mundo dos artistas’, que acontece à custa dos nossos impostos, todos os anos, em alguma cidade aleatória do universo. Eles viajam, comem um monte de mulher, saem na capa da revista e ficam se achando mais bambambans que o vencedor do último BBB.

O engraçado é que cada um ali tem a sua persona. O comediante quer sempre fazer gracinhas. O galã vive com cara de mau. Quem não é nem uma coisa nem outra, tenta ser gente boa. Mas ali, pelo menos 70% acaba se mostrando marrento, mais cedo ou mais tarde. É a forma que encontram pra se defenderem em meio a tanta vaidade e vazio existencial. Têm aqueles que tentam imitar o Cristiano Ronaldo, fazendo firulas e caretas pras 350 câmeras dentro do estádio. A única diferença é que não há estádio, quem dirá câmeras. Somos um bando de pernas de pau querendo dar uma suadinha no meio da semana... Mas isso não entra na cabeça de certas pessoas de jeito nenhum.

Entre uma partida e outra, conversas triviais para descontrair o momento. Um fala que viu o Jesus Luz numa festinha por esses dias, tirando onda de chapeuzinho e charuto na área vip. ‘Fazendo estilinho’. Outro fala que se estivesse comendo a Madonna iria pra festa vestido de fralda, e que ainda sairia nas fotos das revistas com a seguinte legenda: “Fulano de tal, curtindo uma balada no seu novo look”. Todos caem na gargalhada e assim ficam por longos minutos. Ok, até que foi engraçado, mas não era pra tanto. O nome disso é ‘artistice’ - ou pelo menos é assim que eu chamo quando alguém que quer muito ser famoso pela o saco de alguém que já é muito famoso.

O assunto então ganha tônus. Alguém diz que a Madonna, apesar das plásticas e dos exercícios, já virou maracujá. Outro rebate com o dado de que ela é uma das cinco mulheres de maior notoriedade no mundo, e argumenta que só isso já lhe dá status pra ser comida. Fico imaginando de onde ele deve ter tirado esta teoria. Então vem de um poeta a metáfora de que o tal Jesus ‘ganhou na loteria’. Todos concordam, pensativos. Fico pensando que merda seria ser o Zé Pirú de alguém como a Madonna e ainda virar ídolo da classe ‘artística’ brasileira por isso - mas como sou o único ali a pensar algo do tipo, fico na minha.

As partidas se seguem, assim como os padrões. Alguém por favor me explique: por que quanto mais famosa a pessoa fica, mais mascarada ela se torna? É impressionante. E é impressionante como isso é alimentado por aqueles que orbitam ao seu redor. Uma indústria de monstros, essa é a nossa escola. E é bom passar despercebido por todos ali, de verdade. Não me sinto contaminado. Nada além de um cumprimento ou meia troca de palavras com os menos distantes. Gosto de ir lá pra jogar bola e observar. Observar o meio do qual faço parte. O tal inferno.


Sábado à noite, termino de revisar a coluna. Estou atrasado com o meu editor, mas como não tenho editor, tá tudo certo. Abro mais uma garrafa daquele vinho que estava em promoção essa semana no supermercado. Olho bem de perto pra mesa de madeira sobre a qual está o monitor e o teclado onde escrevo. Fico viajando. Ela é toda rajada numa cor entre o castanho e o cobre... É estranhamente linda. É algo que sempre estivera ali e eu nunca notara. Afasto-me e percebo que a mesa é toda linda, refletida pela luz do abajour, sob a fumaça de um incenso indiano. Acendo um cigarro. Estou no meu pequeno e isolado paraíso. Como eu disse, hoje é sábado à noite. Posso não ser nenhuma Madonna, mas sei dar minhas rodopiadas. Portanto, esqueço a mesa, o teclado, o monitor, o incenso... Cato o telefone e faço uma rápida busca em sua agenda.

Enquanto me visto, penso: quem sabe amanhã escreverei minha obra-prima. Ou depois da manhã, quando a ressaca tiver passado. Sinto as ressacas passando e eu ficando. Sinto as idéias passando e eu ficando. Sinto que preciso urgentemente dos meus amigos, de mulheres lindas e de uma praia deserta... Sinto que preciso me dar motivos, projetos pra serem celebrados. Sinto um vazio, mas isso já é normal.

29.6.10

A PEQUENA EPOPÉIA DO RITUAL NOTURNO


1º Ato:

Lavo o rosto com um gelzinho azul especial com cheiro de detergente francês e tiro as lentes de contato, que espremiam as bolas dos meus olhos pelas últimas 16 horas. Elas automaticamente se balanceiam e, através do espelho, vejo lá dentro delas enquanto escovo os dentes. Cuspo a água espumada com gosto de mentol e me sinto exteriormente limpo, embora com aquelas velhas sujeiras da personalidade. Ou o que quer que isso queira dizer.

Elas parecem vermelhas e cansadas, as bolas dos olhos desse cara que me olha. Ele tem olhos verdes, bonitos, no entanto os dentes estão amarelando. Tento ligar uma coisa a outra, e só consigo pensar na imagem de uma ampulheta flutuando em câmera lenta. Então suspiro um suspiro de, sei lá, alívio, mas percebo que estou mentindo pra mim mesmo. Não há alívio, o que há é desespero de saber que amanhã tem tudo pra ser igual a hoje e a ontem. Será mais um punhado de grãos de areia caindo em queda livre, e eu continuarei sendo esse ser desconhecido preso dentro do vidro... Até quando, porra?

Quando vou me acostumar comigo mesmo? Encontrar a plenitude ou pelo menos algo que se aproxime disso? Uma mulher perfeita: é pedir muito, Senhor? Eu quero tanto que acho até que mereço. Só que quando as candidatas aparecem, acabo mandando todas de volta pra casa dentro de poucos encontros – a maioria choramingando e me deixando mal. E por quê eu faço isso? Ah sim, essa é a peça do quebra-cabeça que está faltando. Nunca soube a resposta dessa pergunta, mas é inevitável fazê-la de tempos em tempos.

2º Ato:

Sem respostas, paro a trilha sonora melancólica que dá o tom da cena. Em silêncio, desligo a tela do computador e apago a luz do quarto. O coração da máquina fica pulsando numa luz azul. Enquanto deito para dormir, penso que estou baixando um filme e fazendo cromoterapia ao mesmo tempo. Cubro-me e respiro fundo.

Mais uma noite que você não vem, e eu me despeço pra mais uma jornada ao redor da realidade. Minha cama começa a levitar e fica ao mesmo tempo quente e fria, numa medida quase agradável... E eu fico com saudade do que nunca foi. Ou do que quase foi, mas se perdeu no ar. Aquela jabulani que bate nas duas traves e volta ao pé do zagueiro, então o juiz apita o fim de mais um tempo e a sensação é de eterna prorrogação. Sem disputa de pênaltis ou contagem de pontos.

3º Ato:

Respiro, respiro. Viro prum lado, depois pro outro. Tento me lembrar do que você escreveu no meu mural hoje à tarde. Imagino-te de maria-chiquinha, meias coloridas e aquele fio dental sobre o qual falamos antes de anteontem... Imagens se misturam e você sabe, splash em poucos minutos. Em sua homenagem é mais gostoso, dói menos.

Antes de adormecer, lembro que na verdade você não existe. Está longe, em Amsterdã agora. Fumando-me em algum coffe shop, com sua beleza e charme virtuais. Ou em Milão. Dormindo sozinha, pensando em mim, eu sonho. Ou em Nova Iorque ou na Cidade do México, num fuso horário distante do meu.

O despertador está marcado para às 11 horas de Brasília, como sempre. Amanhã teremos a tarde toda pra nos vermos no skype e nos prometermos o impossível. O real e o imaginário são os dois lados de uma mesma moeda, e sem um deles ela perde o valor. Duas pessoas viajando juntas transformam essa moeda em fortuna.

4º Ato:

Percebo que estou começando a viajar pra longe, deixo rolar. É pra lá que eu quero ir. Na sua direção. Tipo naquele filme de desenho animado em que o cara está sempre acordando num sonho diferente e tudo parece pra sempre sublime. É, você sabe qual é. Já falamos disso. Isso, aparece aqui debaixo do meu edredom e me abraça quentinho. Dá aquela risadinha que eu imagino que você tem e me faz sentir seu homem. Faz carinho, faz. Isso, assim.

O jegue agora descansa sob o sereno da floresta. Ele fugiu do cocheiro. Quer se livrar da carroça que vive presa ao seu lombo mas não consegue. E ainda tem um tapa-olhos desses que o impedem de enxergar o que acontece ao seu lado. Pra ele, o horizonte parece sempre inalcançável.

5º Ato:

Boa noite, meu bem. Vai com Deus se esvair nesse universo. Qualquer dia eu acordo com você aqui, em carne e osso. Qualquer dia eu acordo com você e quem sabe a nossa filha, longe daqui. Qualquer dia. Até lá, não deixe de me visitar, você é o meu segredo. Só quem sabe de ti sou e os meus deuses, minha deusa.

Minha deusa, adeus.

16.6.10

Fenômeno madrigal (foi o nome mais escroto que eu achei)

Você está deitado, há muito tentando reverter o funcionamento do liquidificador de idéias dentro da sua cabeça. Bate aquela leviana pra ver se acalma, mas só funciona por alguns minutos. Depois voltam os milhares de planos e projeções futuras, toda aquela balela inútil que amanhã você já terá se esquecido... E quando a coisa parece não fazer mais sentido, sua mente enfim cansa e você se desliga do mundo, passando a estar, de fato, numa realidade paralela, em vez de apenas construir uma existência que não é a sua. Ela é perfeita, esta nova realidade. Tudo nela faz sentido. Daí, por um breve momento, você abre os olhos e vê as paredes do seu quarto, sua mesa e seu computador dançarem como ondas no mar. Você passa a entender todas as coisas. Elas ganham significados. Tornam-se deslumbrantes. Estão fora da Matrix, por alguns instantes.

Você está absolutamente relaxado, e a prova disso é a enxurrada energética que subitamente te atravessa o corpo. É alguma sensação entre meditar, ter orgasmos múltiplos, ser escaneado por uma nave espacial e receber um santo. Talvez seja o próprio Deus te dando um carinhoso abraço de urso daquela forma que só o safado sabe fazer. É algo que te recarrega. Que te faz se sentir um 'escolhido'. É algo que clareia a opacidade da sua alma.

Daí você acorda e olha novamente pras paredes. Continuam idênticas, porém estáticas e você já não lembra direito pra que elas servem, e então pensa que talvez seja a hora de pintá-las duma outra cor. Azul, quem sabe. Tudo na verdade, continua igual, só que mais feio. Mais sem-graça.

Então você se pergunta que porra foi essa que acabou de acontecer, mas a tela branca continua te olhando cinicamente e você desiste de tentar responder-se, afinal de contas está frio, você está cansado e o sol acabou de nascer - o que te dá mais algumas horas de sono. Daí você deita novamente e começa a ouvir os pássaros e os lixeiros cantando, seu gato miando, cachorros latindo... E logo antes de pegar no sono, sua resposta é respondida com exatidão.

13.5.10

A ARTE DE MATAR MOSQUITOS

É rápido, limpo e indolor, pra você e pra ele. O pequeno filho da puta lhe arrodeia em busca de sangue. Ele quer posar sobre sua pele macia e cravar o ferrão por dentro da sua carne. Você ouve o zumbido infernal e se mantém atento, sem mover - no entanto - um dedo sequer. Estes cretinos agora estão sendo fabricados com antenas de última geração que captam as menores vabrações do ar. É preciso, portanto, paciência e agilidade. No momento em que o piranhudo posar em sua cabeça, corpo ou membros, (ou um pouco antes ou um pouco depois disso, na real não importa), agarre-o com sua mão superpoderosa e não o deixe escapar sob hipótese alguma. Caso seu bebê comece a chorar, o Ricardão saia de dentro do guarda-roupas ou a casa comece a pegar fogo, ignore solenemente. O importante é você achar uma torneira, abri-la e colocar seu punho cerrado sob ela. Em seguida, abra-o milimetricamente por alguns segundos. Depois, abra-o totalmente e observe feliz a cadência do inseto morto. Deguste sua vitória com um sorriso cínico. Sua mão e sua conscîência estarão limpos, e seu corpo, intacto. Você sabe, o mosquito que te morde é apenas uma fêmea grávida que necessita de proteína animal para fabricar o DNA em seus ovos fofinhos no intuito de propagar a espécie, mas que se foda! A vida é mesmo uma selva e estar nela significa lutar, logo tudo o que você deve fazer é proteger o próprio rabo da forma mais elegante possível. Viva à raquete elétrica!

INEVITÁVEL

Deu um trago no cigarro enquanto esperava a cerveja. Sentiu-se tonto e anestesiado. Feliz. Não completamente, é claro, mas o suficiente pra tentar sorrir. Sorrir não lhe parecia natural, logo fechou a cara, depois tentou relaxar o rosto e alcançou finalmente a cerveja que há tanto esperava. Coçou os olhos. Voltou para o seu canto para poder respirar consigo mesmo. Era sozinho que conseguia respirar aliviadamente. Fugir era inevitável.

12.5.10

Tratado sobre porra nenhuma

A natureza é bastante sábia. Ela dá ao homem um tempo de vida suficiente pra que ele possa compreender a si mesmo e nada mais. Mas o que cada homem faz com este tempo é problema de cada homem. A maioria coça o saco, vê TV e cheira o próprio peido enquanto sonha. Alguns vivem a sorrir e preferem não se aprofundar em questões mais complexas - estes também cheiram o próprio peido enquanto sonham. E muito raros são os que coçam o saco e, em vez de ver TV, se aprofundam no próprio sonho e no próprio peido. Engraçado, estes também cheiram o próprio peido enquanto sonham. Só que estes últimos, no final sorriem porque aprenderam algo de valioso.

Os ‘Últimos´ são aqueles que conseguem heroicamente compreender a si mesmos – mesmo que no final das contas estejam errados. São chamados assim porque essa luz que recebem vem por último. Depois de terem vivido toda uma vida, da qual só lhes restam vagas lembranças. Uma confortável sensação de poder metafísico toma conta do corpo por completo, anestesiando todos os traumas de infância e frustrações. Não sobra nada, você é o peido do Buda. O ‘ömn’ - sei lá como se escreve isso – ecoando no universo. Sem o fardo da matéria, você pode agora contemplar a imensidão da qual fazia parte e, enfim, compreender. É sublime. Por toda a eternidade, você será o peido do Buda, perfumando o vácuo universal.

Isso caso você seja um dos ‘últimos’, pois se não for, está fudido. Você simplesmente morre. Como uma calculadora de bateria fraca, seu pequeno cérebro começa a vacilar, cada vez mais e mais, até que a alma lhe abandona o corpo, que apodrece até ser inteiramente engolido por vermes. Haverá um funeral triste em sua homenagem e depois de poucos anos ninguém mais se lembrará de você. E logo em seguida, você voltará a vida na forma de um pequeno feto, uma lombriga nojentinha, como se houvessem apagado sua memória e recarregado suas baterias. Você terá pela frente outras dezenas de anos para ver TV, peidar e sonhar, e também para refletir, se lhe for viável. Será mais uma oportunidade de compreender e contemplar a si mesmo, e de acabar permanentemente com seu sofrimento.

Afinal, do que estou falando? Não sou yôgue nem espírita nem porra nenhuma. Eu nem acredito em ressurreição. Essa é só mais uma masturbação de palavras. Preferia antigamente, quando escrevia feito um amador e vivia como um profissional. Hoje, tento escrever como um profissional, mas vivo feito um paraplégico. Com uma cadeira de rodas sensacional. Eu: mais um jovem carioca, ao mesmo tempo ‘mutante’ de poderes duvidáveis e um aspirante a Dostoievski do Século XXII, definitivamente um subproduto qualquer da mídia insalubre. Deletérios e venenosos, é assim que somos todos nós que seduzimos algum público através de ideais vazios, e que com isso nos esvaziamos dos nossos próprios ideais. Poucos compreenderão o que digo, mas muitos acharão bonito. Não importa, eu compreendo e sofro, e então me divirto com isso. No final, sofro ainda mais, pois não há deboche no mundo capaz de consolar tanta miséria. Estou sendo dramático mais uma vez. Que se foda! Antes dramático do que superficial, este sempre foi meu lema.

1.4.10

10 things I do everyday (Dez coisas que eu faço todos os dias)

- or mostly everyday, without breathing: ( ou quase todos os dias, exceto respirar)


1 – To sleep, asshole. (Dormir, idiota)

2 – To piss. (Mijar)

3 – To drink something. (Beber algo)

3 – To eat something. (Comer algo)

4 – To brush my teeh. (Escovar os dentes)

4 – To drink Alcohol, asshole. (Beber algo alcoólico, idiota)

5 – To reed something. (Ler)

6 – To smoke pot. (Fumar maconha)

7 – To take a shit. (Cagar)

8 – To exercise my body. (Exercitar meu corpo)

9 – To take a shower. (Tomar banho)

10 – To write something. (Escrever algo)

11 - To play with my dick. (Brincar com o meu pau)

OBS: Amigos patriotas, não fiquem revoltados. Acho que fiquei esnobe não sei porque e me deu vontade de escrever em inglês. Foi mal.

6.2.10

Ao Deus dará - Capítulo I

Acordei num salto e olhei a hora: 10:34! "Filho duma puta!!!", gritei bem alto, dei um bico no rádio-relógio e saí em disparada pelo calçamento úmido da minha ilha querida, com o mochilao vermelho sobre as costas. Era para ser um cochilo de apenas 45 minutos, mas obviamente o aparelhinho maldito nao despertou, e assim perdia mais um vôo em minha vida - este marcado para às 9:20 da manha do dia 05 de dezembro de 2009. A viagem já comecava mal. Pra piorar, ninguém da Gol me atendia e a bateria do celular estava acabando, logo nao perdi tempo e entrei no primeiro táxi que me apareceu pela frente. Rumamos para o aeroporto, e no momento em que a atendente Jordana Amorim atendeu-me desejando um bom dia, a bateria finalmente foi pro saco e fiquei falando sozinho. "Filho da puta!!!!!!", gritei novamente e dei um soco no banco de trás do carro. O motorista me olhou de rabo de olho pelo retrovisor. Pedi desculpas e escarrei ódio pela janela.

Paguei os quase 70 merréis da corrida e corri para o curral da Gol, onde uma atendente simpática com olhos verdes extraterrenos conseguiu me encaixar num vôo para o final da tarde, sem nenhum custo adicional. Mais uma vez, meu anjo da guarda falou mais alto do que as probabilidades mundanas, e assim, num suspiro aliviado, sentei-me para um café de 5 merréis e me pus a observar o movimento. A ressaca era das brabas, agravada pelo estresse recém-passado. Em algumas horas dali, deixaria aquela cidade por um tempo indeterminado, para um rumo indeterminado; Minha única determinaçao era me afastar de tudo e de todos que conhecia em busca de algo novo.

Olhando em volta, comecei a sentir pena das pessoas. Da maior parte delas, infelizente. Da maior parte do trabalho que elas faziam, precisamente. Das merdas a que elas se prestavam, basicamente. Senti pena dos garçons, que explicavam como era cada prato e o custo deles, dezenas de vezes ao dia, para burgueses estúpidos a quem ninguém pode ter vontade de servir. Senti pena dos vendedores nas lojas, que transformavam suas preciosas vidas em peças descartáveis da engrenagem fria e sistemática do capitalismo. Senti pena das aeromoças, que escondiam por trás dos sorrisos maquiados e dos cabelos escovados a mais selvagem das sexualidades. Senti ódio de todos os estabelecimentos e instituiçoes que ofuscam a imprevisibilidade das pessoas.

E, ao mesmo tempo, senti gratidao e orgulho por nao fazer parte disso - ou melhor, nao totalmente. É claro, estou preso nesse mundo como todos vocês que me lêem agora, e sou obrigado a ganhar meu próprio sustento. Mas acho que encontrei uma boa maneira de tirar proveito da situaçao. Eu e o trabalho nos damos bem, graças a Deus. Deus. Deus abençoe a arte cênica e a si mesmo, por cuidar de mim e depositar minha mesada sem atrasos todo dia 20.

Pensei também no cinema, minha maior paixao e o motivo maior da minha frustaçao profissional. Pensei nele com um sorriso singelo, sem ansiedade. Sei que quando tiver que ser, será. Enquanto isso, que venham as viagens, as peças, as novelas, as idéias mirabolantes e as mulheres. Ah, as mulheres. Elas estao aos milhoes por esse mundo, e uma hora ou outra há de cair uma das boas em minhas maos novamente. Enquanto isso, peito aberto para a vida.

Foi com essa sensaçao que me despedi do Rio de Janeiro, enquanto o Boing 737 branco e laranja se perdia por entre nuvens surreais. Tive um pequeno flerte com Francielle, a mais jeitosinha das aeromoças, e poucas horas depois posávamos em Buenos Aires. Eu e Francielle, Francielle e eu. Cada um pro seu canto. Dirigi-me à fila da imigraçao enquanto ela ia jogar fora o lixo de bordo, tirar a maquiagem emplastada da cara, bater seu ponto, brincar de upa upa cavalinho com o comandante, etc - sei lá o que as aeromoças fazem quando o aviao chega ao seu destino. Ainda na fila, conheci uma menininha fofa chamada Luiza. Luli era seu apelido - é mole? -, no auge dos seus 20 anos e dos 1,49M de altura, com cabelos loiros escorridos e olhos verdes. Calçava 33, exatamente o meu número. Me disse que era carioca e que estava indo visitar umas amigas na cidade de Pillar, há uma hora dali. Papo vai, papo vem, trocamos o número do rádio e saí batido para nao perder o ônibus.

Quando cheguei ao apê onde ficaria hospedado, "surpresaaa"!!! Uma festa de boas-vindas me havia sido preparada, sendo que eu nao conhecia uma pessoa sequer daquelas que me recebiam. Ok, nao era bem uma festa, estava mais para um reuniaozinha cerveja-com-amendoim feita pelos amigos de um amigo de um amigo meu, mas mesmo assim serviu pra que eu me sentisse amado por ali. Nao que eu nao me sinta amado no Brasil, é claro que sim, mas quando você se depara com uma situaçao dessas, percebe que ainda existe gente como você, que gosta de espalhar alegria pelo mundo. Sei que é meio estranho eu dizer isso depois de toda a visao pessimista que esbocei até aqui, mas quem me conhece sabe como sou uma pessoa amável e bondosa. Aos que estiverem em dúvida em relaçao a essa minha última frase, podem ir à merda.

19.9.09

visão embaçada

Estou parando de correr atrás de trabalho. Como a porra de um vício. É chegada a hora de parar de se matar pra fazer merda por aí e começar a agir como um ser humano. Quero fazer filmes, fazer peças, escrever, beber, fumar, fuder, amar... Fugir um pouco da desumanidade presente. Árdua tarefa, que deve apenas ser realizada se com leveza. O ar anda pesado. São precisos centenas de milhões de cigarros para preencher pulmões tão poluídos.

Centenas de milhões de diplomas universitários que atestam a era do tempo perdido. Centenas de milhões de sacos plásticos para levar o lixo pra bem longe dos nossos olhos. É preciso trabalhar para consumir. É preciso comer para cagar. Navegar é preciso, viver não é preciso. Bússolas são necessárias, relógios não. Remédios para um povo doente.

Estamos na roda da fortuna, como uma galáxia em meio a um universo de miséria. Ok, acho que agora estou começando a viajar pra longe demais. Tento voltar, mas não dá mais. É um caminho sem volta. Merda, que horas são? Nenhuma nova mensagem de email, scraps que nada dizem logo não precisam ser respondidos, nada. De resto, mais nada.

29.4.09

AUTO-REFLEXÃO DA SEMANA (Pra passar o tempo)

Eu vi num documentário inglês que as pessoas de hoje em dia fazem o dobro de coisas do que as de dez anos atrás. Parece que atualmente existe uma grande preocupação em se “preencher o tempo”. E apareceu um barbudo de óculos falando que essa era a síndrome da sociedade ocidental contemporânea. Daí eu fiquei pensando: os ingleses de hoje também fazem o dobro de documentários que os de dez anos atrás faziam, grandes merdas. Que porra é essa, o sujo falando do mal-lavado? ‘Pelo menos eles são bons documentaristas, os ingleses’, pensei, ‘isso eu não posso negar’. Acho que pensei isso porque simpatizei com o barbudo. Então resolvi fazer as pazes com os ingleses e seguir com minha reflexão, afinal eu também precisava preencher meu tempo de alguma forma.

Então pensei uma ou outra besteira e fiquei dando risada sozinho que nem um chinês na casa de ópio, até que escrevi no mural do meu facebook: SACHA PREFERE FICAR CHAPADÃO NA CAMA DO QUE SAIR E COMPRAR UM CARRO NOVO. E percebi que talvez eu não fosse tão parecido com as pessoas de hoje em dia assim. Talvez eu estivesse livre da tal síndrome. Mas aí fui além e concluí que minha preferência por ficar chapadão na cama era resultado de eu estar mais preocupado em evitar o mundo ao meu redor do que de preencher meu tempo com alguma atividade imbecil. E pensei também que as pessoas só inventam atividades imbecis pra evitarem a si mesmas. Daí resolvi que eu não era tão diferente assim das outras pessoas. A minha síndrome era meio diferente, só isso. Síndrome do pânico? Um pouco. Ás vezes mais do que um pouco. Síndrome de Dawn? Não chega a tanto. Às vezes passa de um tanto. Pra ser mais exato, a Síndrome de Sacha Bali. Vamos os sintomas:

1 - Você sai na rua e divide todas as pessoas que vê em duas esferas, as que tão do seu lado e as que tão contra você. Daí você é gentil com as que estão do teu lado e fica esperando um pretexto pra mandar as que tão contra você à merda. Acaba que nunca sai porrada, mas você consegue aborrecer alguém com quem você não foi com a cara e arrancar sorriso de algum sangue bom. E de alguma forma isso te deixa feliz.

2 – O telefone toca, você não atende e torce pra não deixarem recado. Daí você pega o recado, liga de volta e fala “alô” de um jeito bem animado.

3 – Você chega em casa e esmaga o gato só pra ver ele gemer, daí fica rindo que nem o exu-caveira na sessão de macumba. Ele sai correndo e só volta no dia seguinte, com fome.

4 – Todas as noites, você sonha que é alguém muito fudido e solitário andando por uma rua escura. Uns caras mal-encarados começam a te seguir e a te provocar. Você acerta o primeiro que vê e os outros caem em cima, daí você vai arrebentando um por um até que o último sai correndo, abandonando os amigos desmaiados. Ensangüentado, você entra num bar e toma uma cerveja. Todos te olham, você se retira. Uma morena de olhos azuis e seios fartos vem atrás de você e toca no seu ombro. Você se vira. Olhos nos olhos. Lábios nos lábios. Blecaute.

5 – O telefone toca, você acorda. Torce pra não deixarem recado. Bota comida pro gato. Mete o óculos escuros na cara e Ipod no ouvido e sai na rua. Divide as pessoas. Dá sorrisos e pretextos.

6 – Chega em casa. Fica pelado. Reflete. Liga a TV e vai escrever alguma besteira no computador.

15.4.09

Nisso você acredita

Conte-me uma mentira bem bonita, pra eu acreditar que a vida valhe a pena. Mostre-me como você gostaria de ser e eu me apaixono, ou pelo menos fantasio um pouco. Passe maquiagem. Atue. Finja. Acredite na felicidade que ela virá. Foi assim com Moisés ou Maomé, naquele papo de mover montanhas.

Compre “The Secret” nas Lojas Americanas com DVD de bônus por R$29,90. Divida no cartão em seis vezes sem juros, pra acreditar que alguma coisa na sua vida é a longo prazo. Reduza todos os riscos possíveis. Consulte-se com um psicólogo. Instale um airbag duplo e faça seguros. Aplicações financeiras em investimentos moderados. Limpeza dentária com flúor sabor framboesa e clareamento de seis em seis meses. Faça consórcios. Consulte-se com um psiquiatra. Arrume um emprego com carteira assinada e fundo de garantia. E vá à merda, fazendo favor.

Mas antes, leia o meu perfil num site de relacionamentos e veja como eu sou brilhante. Leia uma mentira bem bonita, pra acreditar que eu valho a pena. Apaixone-se por mim, ou pelo menos fantasie um pouco. Não sou Moisés nem Maomé, mas vou à montanha sempre que posso. Não sou Best-seller, mas estou à venda em alguma prateleira das lojas americanas e o seu cuzinho continua pregado na cadeira. Há, há, há. Você pode não rir, mas eu acho graça de tudo isso. Acredite. Ou não acredite. Mas vá à merda, fazendo favor. Se você não for até à merda, se esforce que ela vai até você. Acredite.

Agora fiquei engraçadinho. Fiquei tristinho. Mais sozinho que a magrela da passarela. Agora fiquei excitado. Fiquei maluquinho. Dançando um pagode russo na boate Kossacô. Agora fiquei cansado. Fiquei com sede. Fui pegar a última breja do congelador porque já é tarde e amanhã tem gravação, com carteira assinada e fundo de garantia. Assim como você, também compro mentiras em prestações e pago caro por elas.

8.4.09

ESTUPRO SEMANAL

Às cinco de domingo a tarde,
Quando se olha no espelho ao despertar duma noite braba
Vê sua beleza ofuscada por uma cara torta
Um cabelo desgrenhado, uma remela molhada,
E sente também sua alma quase morta.
Mas um forte homem ali se equilibra sobre as pernas bambas
E logo sorri, e canta um bluesE sai do banho novinho em folha (ou quase)
E anda pela rua como se dela fosse donaE se assenta num restaurante bar
E enquanto aguarda, sem querer, lamentaBebe uma coca, manda um bife goela adentro
E observa atento a uma garota que passaE quando ela olha, disfarça
Levanta com o vento e paga a conta,
Pega seu barco e volta pra cama.

E só acorda ao meio-dia na segunda
E sai do banho novinho em folha (ou quase),
E fuma um pouquinho e corre na praia
E fuma um pouquinho e lê,
E fuma um pouquinho e malha,
E fuma um pouquinho e fuma um pouquinho e bate umazinha e dorme.
E acorda na terça e escreve,
E fuma um pouquinho e sofre (porque ele gosta de sofrer),
E corre na praia e lê um pouquinho e malha um pouquinho e come bastante e fuma um Pouquinho porque ninguém é de ferro e bebe bastante e dorme e acorda e dorme e Acorda.
E bate umazinha e dorme.

Aí ele acorda na quinta e bate umazinha.
Aí ele fuma um pouquinho e escreve.
Aí ele e fuma.
Aí ele bebe.
Aí ele bate umazinha e decora o texto.
Aí ele encontra com os amigos e fuma um pouquinho (ta ficando chato).
Aí ele bebe e decora o texto.
Daí ele bate a ultimazinha da noite e dorme.

Daí ele acorda, toma banho, se veste, dirige, sorri, dá bom dia, come, sorri, dá bom dia, Troca de roupa, sorri, dá boa tarde, daí ele grava, daí ele espera, daí ele espera, daí ele grava, daí ele espera e dá boa noite, daí ele grava, daí ele espera espera espera, daí ele fica puto, grava mais um poquinho, daí ele fuma um pouquinho enquanto dirige de volta pra casa.

Daí ele chega em casa e olha no espelho e ele vê um homem belo. Malhadinho.
Legal, mas ele não sorri.
Daí ele só bebe e fuma bastante, com os amigos, sozinho, com umas aí, sozinho, bate variazinhas, daí dorme, acorda, dorme, acorda, dorme, acorda.
Daí é domingo às cinco da tarde.

Puta merda.

31.3.09

Fila do caixa

Você já percebeu como hoje em dia as pessoas não morrem mais? Praticamente acabou esse negócio. Hoje um cara na fila do caixa eletrônico me contou que pra cada dez mil que nascem morrem dois.
- Dois mil?
- Não, dois.
Demos um passo adiante.
- E eles tão nascendo cada dia mais lerdos, olha só. Lá no meu trabalho você tem que ver cara, eles têm preguiça de passar pela porta.
- Como assim? - eu não entendi.
- Pra procurar emprego.
Não entendi o que ele quis dizer, portanto apenas concordei com a cabeça. Daí continuou.
- Cara, eu sou analfabeto. Eu sou até burro. Mas uma coisa eu não sou: lerdo.
Virei o rosto pra ele lentamente.
- Tem cara que erra três cheques até acertar. Quando vai tirar um talão novo, o sistema não deixa porque ele não deu baixa nos cancelados. Porra, até eu sei preencher um cheque.
Demos mais um passo e daí eu tomei coragem.
- Você disse que os caras do teu trabalho têm preguiça de procurar emprego. Mas se eles já tem emprego, porque...
- É só meio turno. Eles trabalham quatro horas e ficam cansados. Preferem passar fome do que trabalhar.
- Com que você trabalha?
- Chegou a tua vez.
Fui até o caixa e, disperso, errei a senha. Tive que começar tudo de novo. O cara começou a bufar. Refiz a opração. Tirei o dinheiro. Olhei nos olhos dele e disse:
- Valeu.
- Ele disse:
- Falou.
E já sem olhar seguiu para sacar sua merreca. Atravessei a rua e entrei no prédio da minha avó.

(Continua quando eu tiver forças)

Da série: guardanapos encontrados na máquina de lavar

O garçon limpou a mesa. Tirou a travessa de arroz e trocou a garrafa vazia por uma cheínha. Fiquei o observando por alguns minutos. Era um paraíba na casa dos cinqüenta, desdentado e oleoso... a camisa branca apertava-lhe o pescoço e a calça preta pescava siri. Tinha o dobro da minha idade e ganhava um quarto do meu salário, morava provavelmente num barraco de tijolo e talvez sustentasse uma família no sertão do Ceará, mas o filho da puta sorria. Sorria feito um porco na lama e isso fazia dele um vencedor. Muito mais vitorioso do que eu, que acabava de sair de uma longa noite de autógrafos.

Mas depois de alguns minutos, ele sentou num banquinho e passou a mão na careca. Respirou fundo e baixou a cabeça. Então seu sorriso sumiu, dando lugar ao cansaço e à melancolia. Subitamente. Pude ver então o fracasso em sua melhor forma. Na forma de um sonho belo que se converteu em um sonho velho. Moribundo, falso. Ele me enganou direitinho. E enganou a si mesmo. Por todos esses anos, o desgraçado enganou a todos nós. E nós o recompensamos com as nossas próprias mentiras. Matei a garrafa, peguei uma latinha, paguei com os dez por cento e fui beber na beira do mar. Suave.

È um mundo cão

Senhor, tenha dó de mim...
Da minha doença, do meu vício, da minha soberba e ambição.
Tenha dó do mundo onde eu me criei
E do meu orgulho que sinto por nele ter sido criado.
Tenha dó das minhas desilusões
Por nunca estar satisfeito com nada,
Por nunca estar completo.
Isso não é uma música do Cazuza ou talvez seja.

Tenha dó de mim por falar tanto “que se foda” e pensar
O quão foda é a vida e que a gente se fode pra sobreviver -
Não gosto de gastar palavrão com poesia
E nem de gastar rima à toa
Mas às vezes eles começam a sair...
Soltos.
E quando isso acontece, é sério.
Quando o teclado escreve sozinho, é bom.
Quando a lágrima não escorre, é o cotidiano.
E a noite passa com você dando risadas com vídeos baratos,
Com você fodendo mulheres baratas,
Você fazendo um trabalho que é um barato...
Curtindo baratos
Que no final saem caro.

Mas que se foda.
Porque já é tarde e logo mais o sol vai sair
E você vai abrir aquele sorriso colorido,
E vai dar um alô a quem cruzar pela rua,
Você vai ser um cara legal
E todos vão gostar de você,
Você vai gostar de você,
Você vai se amar.
Quero dizer,
Vai olhar para o espelho como quem diz eu te amo ou
Eu te odeio.
Eu quero passar o resto da vida ao seu lado.
Vamos nos foder juntos,
Vamos nos foder
Eu e você,
Meu espelho,
Minha tela de computador,
Minha pulga atrás da orelha.

Vamos procriar as pulgas.

18.3.09

Madrugada negativa

Agora, na madrugada, eu tive um lapso. Estava em queda livre no meio de um sonho, acordei num salto e lembrei de você. Quis romper com a normalidade, inventar uma arma e te sequestrar, te apertar contra o meu peito até nos dissolvermos. É como se eles estivessem contra nós, sabe? Como se a gente junto fosse belo demais para existir. Eu quero que essa beleza exista também fora da minha cabeça, mas logo o dia vai amanhecer e será como se eu nunca tivesse sonhado, como se a vida fosse mesmo pra ser apenas o que é. Uma derrota. Todo dia, quando o dia começa, é como se eu tivesse perdido o jogo. Às vezes, quando a noite acaba, sinto como se o tivesse ganhado. Mas só às vezes. E mesmo assim, eu permaneço sorrindo.

Se você é um anjo, eu devo ser uma espécie de sombra. Você é uma fada, e eu não sou tão verde quanto um duende. Você me ilumina, daí eu brilho muito mais do que qualquer coisa nesse mundo, e eu fico com receio de dizer que te amo. Acho que você vai sumir no céu feito fogos de artifício. Sabe o que é? É porque hoje em dia, tudo me soa meio artificial...

24.2.09

Nota da terça-feira de cinzas

Agora, é como se meu corpo estivesse dividido. A metade de cima quer um grande amor, uma deusa, uma rainha. A metade de baixo quer sexo.

Agora, é como se minha alma estivesse dividida. A metade da direita quer prosperidade, quer luz, quer construir um lar na areia da praia e viver de amor e arte. A metade da esquerda quer se acabar junto com o mundo em pleno carnaval.

Agora eu fiquei quadriculado. Preso. Preciso da sereia que vá juntar meus pedaços, mas já desisti de procurar. Preciso me sentir inteiro novamente, mas tenho a impressão que agora só no ano que vem. E ainda é só fevereiro.

11.2.09

Enrolo um cigarro perfeito, o que não é da minha natureza, segundo certos amigos meus. Eles dizem que a prática leva ao vício, certo? Errado. A prática leva à perfeição. Não sei como, sento na privada e cago em forma de caracol.

7.11.08

Rabiscos borrados que encontrei num antigo guardanapo

No verso estava escrito:

"LABORATÓRIO é coisa de rato.
Eu sou um gato,
no pleno sentido da palavra.
O que me mata é o que está atrás da curva,
E não na queda, quando venho do alto."

Não entendi nada. Ao lado, tinha uns desenhos meio mal feitos: um rosto que parecia ser o de Bukowski, uma gostosa com os peitos de fora e um monstro travado de pó. Ok. Virei a página e comecei a ler, com dificuldade, as palavras miúdas...
"Todos falavam asneiras, enlouquecidamente. Asneiras respeitáveis - pelo menos pra eles, que pareciam respeitá-las. Mas aí um pernilongo roubou minha atenção. Ele era grande e lerdo, e cambaleava sobre o vento provocado pelo ventilador de teto. Tentei pegar o filho da puta várias vezes, mas ele tinha o poder sobrenatural de desaparecer e reaparecer em outro lugar totalmente diferente. O escroto se teletransportava, cansei dele. Já havia desenhado em uma das faces do guardanapo, até escrito um poema meio sem sentido - pelo simples hábito de brincar com as palavras -, e tentado flertar com as barangas da mesa ao lado. Simplesmente passei meia-hora da minha vida tentando chamar a atenção delas, estando imóvel e em silêncio, mas por algum motivo não funcionou. Elas me ignoravam impiedosamente, conseguiam ser mais escrotas que os asnos da minha mesa e o mosquito mutante. Então resolvi dar mais atenção à minha cerveja, parecia minha mais fiel companheira da noite - por mais que eu matasse os copos num gole, as garrafas não acabavam nunca. As bolinhas subiam do fundo à superfície em menos de dois segundos, parecendo asteróides no infinito do espaço sideral. Elas subiam incessantemente, transportando-me para outra dimensão de tempo e lugar. Tudo estava indo bem nas galáxias amarelas, até que o pernilongo dos infernos resolveu me picar. Não sou do tipo que simpatiza com inseetos, mas simpatizei com o puto, confesso. E ele me traiu impiedosamente. Meu único companheiro além das bolinhas, meu camaradinha de asas... tudo bem. A baranga do lado esquerdo me olhou de rabo de olho, comentou alguma coisa com a amiga e depois me fixarou o olhar. "Opa! Talvez eu ainda foda hoje, afinal." Levantei para ir ao banheiro e cruzei com ela, que, nervosa, desviou o olhar e fingiu que não me viu. Enquanto mijava, pensei no que poderia dizer a ela. Nada veio à mente, alguém deu três socos na porta e eu tive que sair. Estava cruzando o balcão quando... merda, acabou o guardanapo!"
Até hoje não sei que fim teve aquela noite.

7.2.08

Carta de suicídio da quarta-feira de cinzas

I
Neste momento, homens em algum lugar do mundo estão trabalhando em máquinas de fazer salsichas, apertando parafusos em pára-choques de carros, lacrando garrafas de cerveja. Eu escrevo através do computador. Todos estamos sempre produzindo alguma coisa, construindo alguma coisa, mesmo que aquilo só faça sentido pra nós mesmos, ou pra nós e mais meia dúzia de babacas. O homem foi feito à imagem e semelhança de Deus ou vice-versa, e assim como nós, ele gosta de jogar boliche de vez em quando. Manda uma tsunami dos infernos e mata milhões numa só tacada. Nós bebemos cerveja, comemos salsichas, dirigimos carros, lemos qualquer merda e passamos a noite inteira derrubando garrafas de madeira que se erguem sozinhas. Estou me referindo ao boliche, caro leitor. Estamos construindo e destruindo, o tempo todo. Inclusive a nós mesmos, e Deus não foge à regra.

II
Tomamos um ácido em pleno carnaval e nos tornamos as pessoas mais felizes do mundo, suamos e babamos, mordemos os lábios, ou então batemos punhetas sucessivas vendo as putarias mais bizarras do mercado virtual, ou então comemos morango com chantily depois do jantar. Por algum momento, somos cem por cento emoção. Depois, exauridos, nos derretemos em tristeza e melancolia. Nunca entendi porque Deus não criou no cérebro algum lugar que armazenasse a emoção - lembramos apenas dos risos, das caretas, nunca das emoções. Pelo contrário, ficamos com a rebordosa, com o day after do que quer que se tenha usado, com as vacas magras de endorfina. No final, são sempre elas, as drogas. Saber controlar as substâncias que circulam pelas nossas veias é a grande arte de viver, somos alquimistas dos nossos próprios corpos. As drogas, naturais ou sintetizadas em laboratórios, são elas que nos levam aos altos e baixos, aos momentos em que nos sentimos realmente vivos.

III
O que diferencia o aparafusador do parafuso? Geralmente nada. Geralmente o homem é alguém que esqueceu o porquê de estar vivo e passou a obedecer passivamente ao calendário e à bíblia, ou a bula da pomada pra hemorróidas. As drogas, naturais ou sintéticas, corporais ou externas, elas correm a um nível constante nesses camaradas. E esse nível constante é o que inutiliza o aparafusador, o que o transforma em parafuso. Pra que serve um parafuso? Pra nada, a não ser pra prender pára-choque, que por sua vez também não serve pra nada, assim como os carros a que eles estão presos, assim como os computadores que nós usamos. São máquinas, utensílios que afastam o homem de sua função primeira, que é a de viver, a de equilibrar as drogas que conduzem as nossas emoções. Como eu cheguei a essa conclusão, só Deus sabe.

IV
Bem, voltando a Deus – estou falando bastante dele hoje -, podemos dizer então que nós, assim como o filho da puta que nos criou, somos cartesianamente divididos em duas esferas: as substâncias e os mecanismos. Somos basicamente drogas e máquinas; as drogas são os combustíveis do nosso aparato físico e mental, são o que nos faz seguir construindo e destruindo idéias e coisas. Eis a essência humana e a essência divina. Profundo pra caralho, vai acompanhando.

V
Quimicamente desequilibrado, sigo escrevendo como se houvesse algum amanhã, como se alguém fosse de fato ler esta merda. Mas na verdade toda esta construção tem seus dias (minutos? segundos?) contados, já que a qualquer hora essa máquina pode sucumbir e levar todas suas informações pro brejo, ou ainda o interlocutor que a constrói pode resolver deletá-la, ou ainda o interlocutor que a constrói pode morrer, ou pelo menos deixar de ser a mesma pessoa, ou sei lá, porra! O que quero dizer é que esta é uma carta de suicídio, logo eu estou prestes a deixar de existir, e assim como eu, as minhas idéias. Ou não, afinal é pra isso que serve o computador, certo? Caro leitor, como você pode ver, começo agora a me confundir (só agora?). Acho melhor abrir mais uma cerveja. Bem, é isso. Espero ter enfim destruído quem eu era quando comecei a escrever esse texto, aliás foi pra isso que eu comecei a construí-lo. Pra passar o tempo enquanto as endorfinas não voltam ao seu nível normal. Continuo fraco, mas pelo menos agora tenho sono, espero amanhã acordar sendo uma outra pessoa.

17.8.07

O fim (As Portas) - Releitura

Este é o fim.
Nosso grande amigo,
Nosso único amigo,
O fim.
De todos os nossos planos, o fim
De tudo que existe, o fim
Da segurança e da surpresa, o fim.
Vamos, que o ônibus azul nos espera.

Ei, motorista, onde você está nos levando?
Ei, motorista, pare o carro que eu quero sair!
Papai! Papai! Papai! Deus do céu, eu não aguento mais!

Se liga. Agora tem alguém vindo em sua direção, e não há nada que você possa fazer a respeito.
O assassino acordou antes do amanhecer, botou suas botas,
Fez uma careta pros seus antepassados,
E foi andando pelo corredor.
Ele entrou no quarto em que sua irmã dormia, e então...
Fez uma visita ao quarto do irmão, e então...
Andou até o fim do corredor, e...
E entrou por uma porta... E olhou por dentro.

Velho escroto? Sim, filho? Eu quero te matar.
Maezinha querida? Eu... Eu quero te foder!

Este é o fim.
Nosso grande amigo,
Nosso único amigo,
O fim.
Mê dê uma chance, amor.
Me encontre no fundo do ônibus azul.
Dói te ver livre agora, amor,
Mas você nunca esteve ao meu lado mesmo.
Você nunca existiu, amor.
Então chegou o fim das gargalhadas e das pequenas mentiras,
E de todas as noites em que tentei esvanecer.

Este é o fim.

16.8.07

Caninos Urbanos

Como eu, como você, como quase todos hoje em dia. Matilhas confusas. São poucos os que ainda têm o privilégio de desfrutar um cotidiano repleto de coisas reais, como uma praia, uma floresta ou uma cachoeira. Estamos presos num labirinto de edifícios e avenidas, caminhando em círculos, em busca de um horizonte cada vez mais distante. Uivamos para uma lua que desapareceu atrás de nuvens de fumaça pós-indunstrial. Seguimos hipnotizados pelos outdoors e buzinas de uma terra firme, como se tentássemos nos equilibrar sobre o casco de um navio fantasma.

Perdoe minha depressão, mas este é o nosso atual paradeiro.

Eu gostaria de estar arrastando pedras pelo deserto, como faziam os avós dos avós dos meus avós. Cães do deserto. Devia ser mais divertido do que passar o dia em filas de banco, em filas de xerox, em filas de cartório. Se não me engano, as filas foram inventadas pelas hienas que chicoteavam meus antepassados a fim de alimentá-los com rapidez, tornando a jornada de trabalho mais produtiva. As filas foram fazendo sucesso ao longo dos séculos, e agora, entre os caninos urbanos, estão mais populares do que nunca. Nem se usam mais chicotes. É o chamado reflexo condicionado: você espanca o totó umas 10 vezes por ele ter cagado no sofá, e toda vez que subir no sofá, o cú do totó ficará bem apertadinho. Somos, na grande maioria, totós. Fomos espancados geração após geração, e agora prezamos por uma boa tosa e ração de qualidade. Temos conquistas e fracassos. Sofás, para nos confortarmos sobre, e bosta o dia inteiro fedendo dentro da cabeça. Só nos resta cumprir os compromissos anotados em nossas agendas, tentando disfarçar o cheiro.

A questão é: por que o totó não foge de casa e fareja sal até encontrar o oceano? Por que os desertos continuam tão desertos?

Porque é mais cômodo ficar deitado no sofá.

8.8.07

Pedrinho véve

No azul do teu olhar, há
uma preocupação que se perde.
Um sorriso aparece enquanto o copo oscila, vazio e cheio,
entre o cair do luar, um partido alto mal-feito, há
um zuar dum defeito qualquer que se perde.
No azul do teu olhar, a
poesia aparece sem se apresentar
o clima ameniza
e se desfaz o fardo azul no teu olhar.
O amarelo, verde fica em cada carranca que cruza,
mais um problema se esconde na caçapa,
e mais uma noite se ganha em sinuca,
em bituca, num boteco da lapa,
e antecede o azul do mar da manhã seguinte
que brilha e jaz
na paz do teu olhar.

Vida longa ao sorriso, hermano!!
Sigo respirando sob a queda da cachoeira, a gente se vê no fim do rio...